sábado, 8 de abril de 2017

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É tudo verdade
Outro dia fui ao Cassino Atlântico, em Copacabana, tratar de assunto particular e na saída vi paradinho à minha frente um exemplar do 474, a tristemente famosa linha de ônibus que liga a Zona Sul a Jacaré no Subúrbio. Não sei explicar, mas me baixou um espírito antropológico que estava oculto em mim desde o tempo em que era professor na FNFi. Decidi fazer uma “observação participante”. O carro era novinho, saído de fábrica e com ar-condicionado, o que não é comum ainda hoje na cidade. Creio que isso também me animou. Embarquei direto pensando em seguir pelo menos até o fim de Copacabana. Vi o motorista sair logo muito apressado, mas não dei importância, até gostei. Mas não durou um minuto e descobri a razão: era para fugir de um bando de pivetes descamisados. Mas na pressa um pivete, pelo menos, conseguiu entrar pela porta de trás e se sentiu isolado. Aos gritos e ameaças queria obrigar o motorista a abrir a porta. Como este não parecia querer obedecer, as ameaças aumentaram e ele corria dentro do ônibus para frente e voltava a ver se a porta se abria, parecia um animal enjaulado. Tornou-se violento e todos no ônibus sentiram a ameaça, uns gritavam apara o motorista abrir a porta e outros gritavam para não abrir porque certamente o bando estaria seguindo o carro e entraria. Eu já me arrependia do preito antropológico e pensava como poderia sair dali também. Isso durou eternos cinco minutos. O trânsito lento não ajudava o motorista a se afastar do local. E os cerca de quinze passageiros no contato imediato com o pivete, imaginando que logo este a qualquer momento passaria a ameaçar-nos para convencer o motorista. As ameaças aos berros e gestos largos soavam como tiros de pistola: abre essa porta seu puto...eu vou aí te dar porrada, vou passar dessa catraca e acabar com você. Vou destruir tudo, seu merda. Para logo. Finalmente, sentindo que o bando ficara para trás o motorista abriu rapidamente a porta e o animal desceu como uma pantera em fuga. Mas não se afastou, ao contrário, pegou um coco solto na rua e partiu em direção ao carro batendo fortemente com ele na porta dianteira, que teve o vidro quebrado e a lata ameaçada.                                     .          Uma senhora de meia idade que estava ao meu lado, já veterana dessa aventura, me explicou: eles ficam esperando até o finalzinho da partida do ônibus para ver se sobe um policial e só então decidem entrar.



Sobre a TV Globo
Ontem um amigo me perguntou por que sou contra a Globo e eu me preocupei. Preciso esclarecer. Não sou "contra" a Globo, a mais carioca das redes de televisão, a que dá mais emprego a belezocas (o que estariam fazendo sem a Globo?) e aos talentos audiovisuais. Critico apenas a visão imediatista do seu departamento esportivo, que faz parceria cega com o Flamengo e permite a esse clube, mesmo sem time, fazer show no maraca ou onde se apresentar no país, empurrando, por contraste, os demais para o buraco. Sim, porque a Globo tem poder de mídia para "fazer o show" de qualquer coisa, até do atual time do Flamengo, pode fazer essa mágica de criar um astro ou promover um clube, e escolheu o Flamengo. Eu gostaria que ela fosse mais equilibrada com todos os clubes cariocas. Alguns amigos, ingênuos, explicam que transmite o Flamengo porque as datas e horários coincidem com os da Globo, quando é o inverso. Outros justificam pela grande maioria de torcedores. Sim, mas essa maioria foi construída desde alguns anos já com ajuda da própria Globo. É isso, eu também quero a Globo, para o Vasco, o Botafogo....
Meus desejos esportivos de fim de ano são que as autoridades superiores da Rede Globo se apercebam que seu patrocínio a um dos clubes cariocas, em prejuízo dos demais, é perverso, comercialmente equivocado no longo prazo, eticamente condenável e ilegal frente à lei de direitos dos torcedores. Ao longo dos anos criou um fosso enorme entre as torcidas desse clube e dos demais. Diariamente pode ser demonstrada a ponta desse iceberg. Os melhores jogadores optam pelo clube parceiro porque sabem que terão sua imagem superexposta (e sabemos que os craques ganham mais de imagem que de salário). Isso traz vantagens no recrutamento de novos craques e economia nos salários contratados. Hoje mesmo um jogador disputado tornou pública sua preferência. As outras vantagens eu tenho exposto ao longo dos últimos anos e seria penoso repeti-las nessa data. Feliz Ano Novo para todos nós!
O Botafogo tem sido subestimado pela mídia como clube e time. Seu presidente acaba de descobrir que precisa reativar rivalidades esportivas como fez Eurico Miranda com o Vasco x Flamengo, roubando a preferência da Grande Rede pelo Fla x Flu. Acho que todos os quatro grandes merecem destaque em rivalidades esportivas, esse é o sentido do esporte de multidões, não a pregação do vale-tudo de certo time da Casa.


Especulação financeira

No Brasil, os especuladores financeiros fazem a festa. Eles entram à hora que querem, mordem onde querem, chupam nosso sangue na bolsa de valores e na taxa de juros, e quando querem sair do país pressionam a taxa de câmbio para ganhar também na recompra de dólares. Ganham assim duplamente. E nossas autoridades financeiras são cúmplices desse círculo vicioso.
Nos últimos anos venho criticando a política de juros altos e câmbio do Banco Central, que empurra o país para se concentrar na exportação de matérias primas, abdicando de tornar-se uma nação de primeiro mundo. É verdade, reconhecendo que por vezes o Banco teve de correr atrás para tapar buracos da política econômica. Pois agora é um dos pais do Plano Real, Pérsio Arida, (um dos outros pais, não reconhecido oficialmente, é o economista do BNDES meu primo Claudio Abreu) que afirma categoricamente que desconfia da eficácia dos juros altos no combate à inflação. Pois é, por conta desses sucessivos funcionários de bancos emprestados ao serviço público vamos exportando dinheiro para, como dizia o insuspeito – nessa matéria -- Delfin Neto, salvar o lucro dos capitalistas internacionais. Descoberta tardia, mas ainda assim inspiradora.
No Brasil, os especuladores financeiros fazem a festa. Eles entram à hora que querem, mordem onde querem, chupam nosso sangue na bolsa de valores e na taxa de juros, e quando querem sair do país pressionam a taxa de câmbio para ganhar também na recompra de dólares. Ganham assim duplamente. E nossas autoridades financeiras são cúmplices desse círculo vicioso.

Nossas Opções de Políticas de Governo entre a Cruz e a Caldeirinha
Em troca de manter pífios benefícios para os mais pobres o PT queria que a classe média aceitasse a corrupção sistêmica como instrumento de governo.  A alternativa está sendo suportar um governo de capitalismo selvagem onde proliferam economistas convencionais usando argumentos falaciosos e oportunismo de crises construídas para agir como verdadeiros abutres dos benefícios sociais. Resultado: estamos ferrados de qualquer jeito. O que chamam de crise o lulopetismo usava para justificar desgoverno e o atual governo usa para justificar a redução de direitos dos trabalhadores. Dois falsos argumentos, os males do Brasil são. As dificuldades reais são geradas por governos incompetentes e comprometidos com os ganhos do sistema financeiro.  Claro que reformas são sempre necessárias, afinal o mundo gira, mas as explicações não convencem, são mais fidejussórias, justificações de escolhas prévias.  Ouvir coisas como “esperar passar as eleições para praticar as maldades” supostamente necessárias, ofende a nossa inteligência, é uma confissão ideológica. Dificuldades, ou crises, são decorrentes de maus governos e desvios de finalidade. Quando um ministro a serviço dos bancos é nomeado para governar a economia, os juros sobem, o dólar baixa, a classe média vai fazer turismo lá fora e qualquer falta de produto na praça se resolve com mais importações. Então o que falta é uma política que favoreça o investimento nacional, essa é a crise.                                                                                                                
Ouvir explicações de autoridades ocasionais de governo dá dor de barriga, é aceitar ofensas a nossa inteligência. Somos diariamente bombardeados por economistas ardilosos a serviço do mal. É a ciranda capitalista se movendo leve, livre e solta.

A Terceirização do contrato de trabalho   31\03\17

Está em discussão (sic) e praticamente aprovado um regime trabalhista de terceirização ampla do contrato de trabalho. A resistência sindical faz sentido. A terceirização rompe com alguns postulados importantes da relação de trabalho, como a identidade profissional do empregado com a empresa. Faz parte da ideologia das relações de trabalho que este não poder ser tratado como mercadoria. Para isso os RH foram criados e desenvolvidos nas empresas. Incluem um pacote de serviços e boas práticas, como política salarial, formação, carreira e benefícios sociais.  É bem distinto se você está empregado numa empresa sólida, de imagem prestigiosa, com mística, com nome na praça, que traz orgulho a seus empregados, e outra, terceirizada, criada às pressas para dar conta de um contrato de tempo limitado. Você cria dois gêneros de empregados trabalhando juntos, o autêntico e o bastardo. É o deterioro, o conflito dentro das hostes trabalhistas. Só um governo sem alicerces históricos poderia ter coragem de instituir um regime dessa ordem (sem progresso).
A terceirização já se pratica atualmente, mas apenas para funções secundárias, provisórias ou temporárias da empresa. Agora se está liberando para todas as funções, um escândalo inacreditável, uma vez que isto está sendo feito na marra e sem nenhum beneficio compensatório para os trabalhadores. Podemos afirmar que essa proposta ademais está no bojo de um processo de depreciação e precarização das relações de trabalho. Se assim, quem sabe não deveríamos extinguir de vez o contrato individual e os trabalhadores se reuniriam em seus respectivos sindicatos e o sindicato faria contrato comercial com as empresas, como se pratica em parte nos portos?! Eliminaríamos as relações de trabalho e Marx estaria feliz em seu túmulo, sem mais a exploração do homem pelo homem.


Impeachment

A Crise Institucional do país: Está claro que a Lei do Impeachment precisa ser rediscutida. A associação entre uma base técnica e uma interpretação política é uma contradição em si mesma. Se é necessária uma base técnica e uma vez cumprido o requerido, qual o papel que restaria aos políticos? Se eles podem ignorá-la, então não era necessária, era apenas subsídio. Ora, se uma autoridade jurídica os obriga a votar de acordo com a base técnica, então para quê consultar os políticos?  E se eles decidem votar contra a base técnica poderão ser contestados pelo jurídico?
Por isso eu disse em texto anterior que é tudo um faz de conta: os políticos ignoram a base técnica e votam de acordo com seus interesses, fingindo que estão considerando a base técnica, enquanto o jurídico finge que está sendo obedecido.
Outra contradição é a necessidade de passar primeiro pela Câmara para depois passar pelo Senado. Ora, se a Câmara veta tira o direito do Senado de examinar. Se a Câmara aprovar, o veto no Senado soa como reprovação da Câmara, sem chance de reavaliação. Por que não juntar o Congresso para um exame conjunto?
Muita coisa precisa ser revista na institucionalidade do país.


Governo provisório

Enquanto eu pensava no grande equívoco que atualmente ocorre no país, como parte de minha tese da crise institucional, vejo que o tema foi tratado por um partido de oposição, em reclamação ao Supremo. Realmente o Temer não podia ou não devia fazer tanta mudança como governo provisório. Era até melhor para ele, e o desobrigava de consertar o país em tão pouco tempo, tarefa quase impossível. E funcionava até como pressão para aprovar logo a saída de Dilma. Temer não teria de fazer nada, só levar o governo em banho-maria. Mas isso não seria desastroso para o país, aguentar mais tempo no caos? Então realmente aí está mais um vazio da lei do impeachment, requerendo discussão e revisão. E sujeito a mais improvisos do Supremo.
A primeira obrigação de um governo é cuidar do bem-estar da população e a geração de renda é um dos principais instrumentos desse objetivo. Governos que falham nessa finalidade deviam ser depostos ou renunciar. Tenho visto chefes de família às lagrimas sem saber como manter sua sobrevivência. Tenho visto um governo provisório aproveitar-se da suposta crise para cortar benefícios e conquistas da sociedade, sem tocar em alternativas que poderiam poupar o sacrifício social. Lamento a falta de verdadeiros líderes políticos com o perfil de estadistas. É grave a situação do nosso país, não apenas pela má economia, mas pela falta de grandeza e virtudes de nossas autoridades.
É o que sempre digo, toda vez que se anuncia uma reforma nesse país é para cortar benefícios dos trabalhadores públicos ou privados. E que dizer dos aposentados? Os dirigentes do país são cretinos, abusam da ignorância de muitos brasileiros, que eles exploram com suas escolas falidas e sua saúde negada. Faltam líderes legítimos, com dignidade, consciência do bem comum e visão de estadista. A gente já está cansado de fazer manifesto e passeata, porque já não acreditamos nisso

O Supremo
O Supremo tem sua chance de corresponder à grandeza que dele se espera e mostrar-se ao país como um verdadeiro marco da pátria, renunciando com alarde a esse acinte contra o povo brasileiro. Está claro que Temer está chantageado, e é obvio que também ele não vai mostrar qualquer atitude superior a suas pernas. Parece que o povo vai ter de voltar às ruas, agora com uma tarefa bem mais difícil de captar numa palavra de ordem.
Nós afinal já customizamos o absurdo, vulgarizamos a marginalidade, engolimos a rapinagem dos políticos e administradores da coisa pública. Mas se pararmos um minuto para refletir, que merda fizeram desse país?! Convivemos com bandidos que cruzam com a gente nos sinais e nas esquinas, vemos todo dia um gestor publico ser descoberto na gandaia, e imaginamos quantos outros não foram ainda descobertos. Vivemos a impotência de não saber como parar com tudo isso. Corremos o risco de nos virar baratas. Proponho que não deixemos um dia sequer de indignar-nos. Mesmo sabendo que não vai adiantar até que outras coisas aconteçam, vamos exercer nosso dever de ficar indignados com a torpeza de empresários, comerciantes, políticos e gestores que se apossam de bens públicos. Quantos Moro seriam necessários? Felizmente as transformações sociais nunca tiveram autoria, elas acontecem e só se explicam depois, vamos manter a esperança de um acaso. A coisa pública é sagrada, não pode ser objeto de astúcia da bandidagem. Qualquer dano a um bem público pode ter consequência para milhares de indivíduos. Vamos parar de imaginar que desvio de recursos é apenas crime eleitoral.
Minha opinião pelo impeachment nunca foi baseada em pedaladas, mas nos graves delitos eleitorais. E nunca me deu prazer, sei que não temos alternativas confiáveis. Ironicamente, quando Dilma tira o Levy (neoliberal convencional) por discordância teórica, eu aplaudo, e quase me convence a torcer por sua permanência, não fosse a necessidade de punir o mau exemplo eleitoral. Quando ela pede agora a “boa política”, esquece a pregação do confronto que seu cabo eleitoral raivosamente pedia nos palanques e na mídia. 
Hoje sabemos que o Supremo (sic) está pagando pedágio. E a farsa, o escárnio do Sr. Tofoli votando contra o governo só reforça a impressão que tudo estava já armado. Me senti num circo.

Afinal, estamos cegos moralmente? Estamos condenando a corrupção dos meios sem questionar em nada a corrupção dos fins? Será que faz sentido a gente se tornar um monstruoso abatedouro animal para alimentar o mundo rico? As recentes denúncias de problemas no circuito nos trazem à luz a visão crua de um problema muito maior: nosso país se transformou num grande matadouro animal, de proporções gigantescas, um verdadeiro holocausto animal permanente, 24 horas, o sangue jorrando por nossas faces, maculando nosso sangue e estamos discutindo se ele é vermelho. Será que precisamos do dinheiro sujo do mundo rico para equilibrar nossa balança comercial? Nosso motivo é justo? Não teríamos outros recursos, outras riquezas para fundamentar nosso equilíbrio fiscal? Já estamos tão abalados por nossos problemas cotidianos que perdemos nossos sentidos de humanidade? Além dos desvios de nossas merendas e nossas poupanças, nos sobra algum sentimento de humanidade para questionar essa carnificina hedionda?

Dia da Independência
No dia em que se convencionou chamar “da independência” eu leio estarrecido, mas não surpreso, que os novos (sic) poderes da república querem remunerar o trabalhador por hora trabalhada. Esse é o caminho mais claro e corrosivo para eliminar direitos trabalhistas e tratar o trabalho como mercadoria, regressando aos tempos de Marx no século XIX.  Tudo isso é parte da herança maldita do PT que nos jogou nas mãos do capitalismo abutre, comandado por um banqueiro no ministério da economia (que saudade de homens como Celso Furtado!). Justamente nos momentos de crise (o capitalismo usa e abusa das crises, elas estão sempre a seu serviço), com forte desemprego, as organizações trabalhistas (sindicatos) estão fragilizadas e não conseguem enfrentar seu inimigo direto. As reformas não precisam ser sempre às custas do lado mais fraco, mas é isso que acontece. Nesses momentos o poder faz o que é certo, por exemplo, aumentar a idade de aposentadoria para melhorar a curva populacional, e junta um monte de justos direitos para varrer tudo de uma varada só. E o povo já está cansado de ir às ruas e perceber que a leitura que fazem de suas mensagens é sempre distorcida. As passeatas viciosas e remuneradas do PT ajudam no desgaste. Dia da Independência soa quase como um deboche.

É o que sempre digo, toda vez que se anuncia uma reforma nesse país é para cortar benefícios dos trabalhadores públicos ou privados. E que dizer dos aposentados? Os dirigentes do país são cretinos, abusam da ignorância de muitos brasileiros, que eles exploram com suas escolas falidas e sua saúde negada. Faltam líderes legítimos, com dignidade, consciência do bem comum e visão de estadista. A gente já está cansado de fazer manifesto e passeata, porque já não acreditamos nisso.

Quando eu olho para trás, o PT foi uma de minhas últimas ilusões. Quando eu olho para o que o PT fez do Brasil, eu fico envergonhado comigo mesmo. Vejo minha falta de percepção e fico pensando se posso crer nas minhas convicções atuais. Ou seja, o PT me destruiu desmoralizando meus instrumentos de compreensão da realidade, minhas certezas mesmo provisórias.  O Brasil hoje é um absurdo, as pessoas se matam e matam por qualquer valor, um smartphone, um cordão. Antes pensávamos que os bens públicos eram de todos, todos tinham de cuidar, o PT os transformou em de ninguém e portanto qualquer um pode tomar.
Os teóricos do socialismo, Marx incluído, achavam que o socialismo se alcançava por cima, com o crescimento de todos, vem o PT e tenta fazer um socialismo por baixo, deu no que deu.
E precisa ter muita cara de pau para continuar negando o que todos veem. E precisa ser um país bem infeliz para engolir tudo isso. Esse lixo.


Duas caras da mesma moeda

Lula e FHC são duas caras da mesma moeda. O desenho partidário de hoje reproduz o de velhos tempos quando o PSD estava para a classe média e o PTB para o povão. Com essa distribuição as elites mantinham o controle completo da sociedade, como é de sua vocação.
Essa mesma fórmula funciona nos dias de hoje: o PSDB cuida da classe média e o PT cuida do povão. Ambos obedecem a uma mesma lógica elitista. Ou alguém pensa que o PT é um partido de esquerda de corte socialista?
Dirão que o PT foi criado de forma autônoma por uma mescla de sindicalistas, intelectuais e igreja, tudo bem, mas isso foi possível porque estava dentro da expectativa da lógica elitista de sustentação do controle social.
Quando o PT se entusiasmou no caminho e pensou de forma radical precisou lançar a Carta aos Brasileiros. E o que é a carta senão uma promessa de trabalhar dentro dos parâmetros do capitalismo. Em nenhum momento Lula ousou um salto político. E mais, cumpriu fielmente o prometido colocando todo nosso dinheiro nas mãos do neoliberal Henrique Meireles. Da total confiança dos militantes petistas? Não, um homem do sistema financeiro internacional que poderia ser ministro do PSDB.  E trabalhou os oito anos com juros altos, apesar da crítica de Lula aos juros altos de FHC. Com rigor podemos dizer que Meireles cuidou do andar de cima com Palocci, e Lula cuidou do andar de baixo, conforme sua vocação. Um governo dual que foi viabilizado pela enxurrada de recursos trazidos pelas commodities.

Mas o modelo distributivo de Lula não podia ser para sempre, os recursos fatalmente se exaurem no tempo, foi o que aconteceu, agravado pela baixa da matéria–prima.

Ironicamente o período de governo petista mais próximo de suas origens foi o primeiro governo de Dilma, quando o fator neoliberal foi eliminado. Infelizmente, para Dilma, o sistema de governo já estava contaminado: os aliados já estavam na prática sistemática da corrupção, já sem precisar prestar serviço; as commodities não rendiam como no passado; O PT estava internamente dividido em facções.

Lula e FHC cultivam amor e ódio, têm uma profunda admiração mútua. Lula inveja o estilo intelectual de FHC e este o carisma de Lula, a capacidade dele se aproximar do povo. FHC elegeu Lula por satisfação e vaidade, sacrificando o “amigo” Serra.

O milagre de Lula na retirada de milhões de pessoas da miséria, foi possível por um detalhe perverso de FHC, que separou o destino do salário mínimo do destino dos aposentados, foi um algoz dos velhinhos, Lula não teria coragem de fazer isso, mas não mudou a decisão de FHC, se aproveitou dela para descolar de vez o salário mínimo e inserir milhões de brasileiros, não num processo de matiz socialista, mas no mercado capitalista. FHC ia fazer isso se tivesse mais tempo.

Como se sabe, o bolsa-família também é uma dívida do Lula com FHC, que apenas não teve tempo de fazer o que Lula fez. O bolsa-família no modo como é praticado, constitui um programa social que qualquer partido de direita teria prazer em fazer.
Se o PT fosse um partido de esquerda estaria exibindo um programa de saúde universalizado e de alta qualidade, não o fez, ao contrário, destruiu o pouco que havia e o único sistema de qualidade feito pelo PT foi o Sírio-Libanês, para uso próprio e dos amigos.
E teria construído um sistema educativo público de alta qualidade, em vez de dar bolsa de estudos nas escolas particulares da elite, transferindo recursos para estas. O que ele fez é um típico programa de partido de direita, com o tradicional processo de cooptação dos melhores cérebros pelas elites. O mesmo que os americanos fazem com os melhores cérebros brasileiros oferecendo-lhes bolsas de estudos em suas melhores escolas.

FHC faz suas escolhas na crença de que estimulando as elites os pobres serão beneficiados por um processo em cadeia, afinal são os ricos que investem em empresas que dão empregos e produzem bens.
Esperava-se que Lula induziria um modelo de baixo para cima, investindo fortemente em educação e desenvolvimento microrregional. Não o fez, investiu em grandes empresas como multiplicadoras, ao velho modelo conservador. 


Extratos da carta: Será necessária uma lúcida e criteriosa transição entre o que temos hoje e aquilo que a sociedade reivindica. O que se desfez ou se deixou de fazer em oito anos não será compensado em oito dias. O novo modelo não poderá ser produto de decisões unilaterais do governo, tal como ocorre hoje, nem será implementado por decreto, de modo voluntarista. Será fruto de uma ampla negociação nacional, que deve conduzir a uma autêntica aliança pelo país, a um novo contrato social, capaz de assegurar o crescimento com estabilidade. Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país.  A estabilidade, o controle das contas públicas e da inflação, é hoje um patrimônio de todos os brasileiros. As mudanças que forem necessárias serão feitas democraticamente, dentro dos marcos  institucionais.


Alternância de poder

Nas últimas eleições votei pela alternância no poder. Devia ser uma das regras pétreas da democracia. Isso obrigaria os dirigentes a ser mais prudentes, desestimularia a corrupção e evitaria o aparelhamento do estado. Precisamos apostar mais na circulação das lideranças, principalmente das elites. Acreditar mais nas instituições e não apenas nas pessoas. Salvadores da pátria costumam ter u bom começo e um final desastroso.
Não vejo, por exemplo, como o PT sairia andando do poder (só de maca), o que faria com os 60 mil ativistas e chefes de torcida que vivem de contratos do estado? Justamente por ter projeto político de permanência indefinida no poder (20 anos, 30 anos?) é que criou estruturas artificiais na administração pública. E optou por correr riscos na certeza de que os que virão depois não estarão interessados em avaliar os seus desvios de conduta.
Se queremos de verdade uma democracia, teremos de nos acostumar com uma sociedade de classe média, buscar entendê-la e não demonizá-la como faz o PT, numa leitura apressada de Marx.
O que vivemos no país neste momento é o atropelo deslavado das frágeis posturas democráticas, de todos os lados. Por confiar demais em lideranças carismáticas de fachada convivemos com o abuso e o improviso. Nesse clima tudo pode acontecer e o custo é quase sempre pago pela parte mais vulnerável da sociedade.

Não estou eufórico com a possível derrocada do PT, estou triste e sigo revoltado. Até porque pessoalmente me prejudica . Na última eleição votei pela alternância no poder, depois de sucessivas votações favoráveis ao partido que prometia e tinha genética para mudar o país. Infelizmente o PT havia perdido o rumo e a razão de ser. Um período sabático poderia ajudar quem sabe o PT a voltar a suas raízes, certamente mais sólido para retomar o comando da política e do governo, recuperando o antigo tesão, mais amadurecido e fazendo as coisas certas e não as farsas que parte da intelectualidade se perde em enaltecer com slogans vazios como essa de “não vai ter golpe” sem explicar, nunca, como o país veio parar na lama depois de 12 anos de governo. Aliás, intelectual incompetente para a política não é novidade, a literatura e a história estão fartos dessa incongruência. A beleza estética, musical e poética do artista não o qualifica automaticamente para falar de política, depende mais de sua história de vida, mas aí sua opinião não é melhor nem pior que a dos nossos amigos mais próximos. Um conhecido sociólogo norte-americano lembrava muitos anos atrás que os artistas costumam ser apenas “a cortina sonora do poder”.     12\04\2016

O Faz de Contas da Política Brasileira

Como explicar a algaravia da recente política nacional?  O PT foi a maior novidade partidária dos últimos 30 anos. Trouxe um novo tempero para a política do país, um governo que olhava para baixo, que dava visibilidade ao pobre. Mas afinal não promoveu nenhuma reforma estrutural sustentável, fez mais ruído que mudança e praticou o assistencialismo abusivo.       Mas um governo realmente de esquerda teria revolucionado a educação e a saúde, teríamos hoje um cenário muito diferente para as populações de baixa renda. Ainda assim não se pode negar que fez muito mais para o pobre que os governos tradicionais.
Mas não investiu em sustentabilidade, quando os ventos do comércio exterior de commodities eram favoráveis. Em vez de promover o crescimento industrial favoreceu a importação, com um dólar barato que cobria as demandas crescentes da população com produtos da China.  No curto prazo funcionou, mas quando o jogo comercial virou, começou a fazer água no sistema.
Os benefícios distributivos ajudaram os que estavam prontos para receber, mas os que vinham atrás já não puderam ter a mesma sorte.
Era hora de renovar os contratos políticos, mas aí entrou em cena certo juiz do Paraná, que, como na poesia de Drummond, não fazia parte da estória.  Juntou-se a isso a quebra da Petrobrás e a falência de todos os indicadores da economia brasileira. Seria o fim do ciclo do PT e viria a alternância, como parte do processo democrático. Mas os compromissos ideológicos do partido e o modelo aparelhador não permitiam cumprir o que a realidade do país recomendava.
 O esquema de alianças do PT não se enquadrava em seu modelo ideológico de corte absolutista. O resultado foi um composto espúrio, um frankestein que só o malabarismo de Lula conseguia manter de pé.  Mas Lula e Dilma estavam de guerrinha interna e o partido perdeu o timing político. A falta de uma oposição combativa, o aparelhamento do estado e a criação de milícias partidárias ajudavam a amortecer os sensores do partido.  A reeleição de Dilma foi forçação de barra e para tanto o PT teve de apelar para todo tipo de recurso, lícitos ou não.  Mas estava navegando num terreno onde os adversários eram veteranos e ele aprendiz de feiticeiro. O PT foi um partido diferente em muitos aspectos, pela natureza ideológica, mas caiu na vala comum das práticas de acumulação e preservação do poder político.  E acabou perdendo as condições mínimas de governança: credibilidade e capacidade.
Normalmente deveria renunciar para poupar o desgaste político e voltar reciclado em 2018. Não teve grandeza para isso. Talvez os milhares de cargos de nomeação partidária tenham impedido o gesto nobre e oportuno.
Caberia o impedimento pela Justiça Eleitoral, mas essa importante instituição não se mostrou preparada para o momento, levaria um século para exercer suas responsabilidades, enquanto o país sangrava e exigia presteza nas soluções. Então as ambições pessoais entraram em cena, ocupando o vazio político e precipitando, por sua vez, os acontecimentos.
O instrumento selecionado para esse fim, o pedido de impeachment com os três pilares, teria sido o modelo apropriado, mas a legislação, imperfeita, criava limitações absurdas, como a do fato restrito ao período de mandato, elaborada quando não havia reeleição, então inadequada para a realidade atual. O fato político não é episódico, ele se desenvolve no tempo, não pode ser integralmente capturado no flagrante. As chamadas pedaladas só podem ser entendidas no contexto histórico do país, isoladas perdem substância.
O PT perdeu o timing político para governar, tinha de dar lugar ao curso da história, mas não era de seu estilo. Quando sentiu o perigo apelou ao Supremo. Achava que a maioria da Corte lhe daria sustentação.  Mas o Supremo enxergou a onda política que se esteva configurando, óbvia e irremediável, ficou dividida entre uma suposta fidelidade e a razão institucional. Faltava-lhe um modelo para apropriar a crise e encaminhá-la sem contestações. Teve de improvisar: a Câmara apenas admite, mas quem decide é o Senado.  Tudo parecia resolvido, mas o presidente da Corte, ao fazer a suma das discussões, incorpora por conta própria uma limitação ao poder do Senado, impossível de ser administrada. Como submeter o critério técnico à escolha política? Ou é uma coisa ou é outra. O resultado foi o jogo de cena instalado: a defesa construindo um sofisma intencional, tentando reduzir o fenômeno a um ato simples, fazendo uma leitura interessada da suma do Supremo e daí extraindo o argumento para o mantra do golpe, e a oposição não aceitando a limitação mas não podendo levantar questão sobre a atitude do presidente do Supremo, sobretudo porque é ele quem vai presidir as seções do Senado. Cria-se o jogo de cena, cada lado insiste em sua narrativa, intencionalmente falsa, sem nenhum diálogo real. O Congresso finge que está cumprindo regulamento do Supremo e este finge que está sendo obedecido. Na verdade o jogo foi jogado e não há mais condições de governabilidade para Dilma. Mas esse jogo tem de ser representado até o fim, para cumprir formalidades e por isso, tudo parece ser uma grande farsa, um jogo de cegos e surdos.  Precisamos de reforma política urgente, mas não sei se os que estão aí estarão à altura dos desafios. A alternância no poder é fundamental numa democracia, o melhor instrumento para ampliar oportunidades e aproveitar a riqueza humana proporcionada pela diversidade natural de um país da dimensão do nosso.
Mas ao fim e ao cabo, vai ser muito bom para o PT: livra-se da ingrata tarefa de arrumar a casa e pode voltar em 2018, depurado, com o mantra de recuperar o que lhe foi tirado à força

O ex-diretor da AGU tinha razão, foi um golpe. Mas esqueceu intencionalmente de dizer que foi um golpe político. Ele tenta um argumento de que somos presidencialistas e o golpe tinha perfil parlamentarista. Na verdade, a fragilidade da política brasileira coloca-a entre os dois regimes. Nosso presidencialismo tem de lidar com duas câmaras famintas de poder e sobretudo de privilégios e benefícios. Se nosso presidencialismo escorrega para o lado direito vira ditadura e se o faz para o outro lado vira parlamentarismo.
Em dado momento o vice fez as contas e viu que somado à oposição tinha mais canhões que o isolado parceiro eleitoral, que o tratava como convidado de pedra.  Lembremo-nos da revolta paulista de 32 em que os generais dos dois lados contaram os canhões e...fez-se a paz!  Não está nos manuais de política que os partidos não podem mudar de aliança no regime presidencial. O AGU chamou de crime o que era apenas um golpe político. Se esse tipo de golpe vale ou não, não creio que esteja escrito nas estrelas. O detalhe técnico se tornou irrelevante. Já o golpe eleitoral do PT, em 2014, não há nenhuma dúvida que arranha as regras do jogo.

O nosso Planeta está enfermo e sangra. Temperaturas batem recordes e não se vêm esforços significativos de preservação das matas e despoluição das bacias hidrográficas.
A humanidade está socialmente enferma. Continuamos com três bolsões sociais estanques, as elites endinheiradas, as classes médias hesitantes e a pobreza resistente. O mundo ocidental, que comanda as decisões do planeta, mostra total descompromisso com o futuro da humanidade. As elites continuam em seu baile da ilha fiscal, sem grandes lideranças virtuosas, já sabem que não haverá tempo tecnológico para construir uma ponte salvadora para outro planeta, e vêm ruir seus templos de segurança, a Europa civilizada e os EEUU rígidos em seu controle social. As dramáticas projeções de futuro nas ficções hollywoodianas já podem ser vistas aqui e ali pelo mundo afora. 
A França já não possui o dom das grandes filosofias que nos orientariam com segurança para um novo mundo (saudades de Rousseau...), e a Inglaterra, depois dos Beatles, não produz mais novos cenários culturais aglutinativos. O abalo é geral e no caso brasileiro não temos mais a janela para olhar os exemplos externos que nos davam esperanças. O mundo está ruindo. O que se aproxima e dá sinais (ovos da serpente) é o salve-se quem puder, o vale tudo de um UFC que extrapola o quadrilátero e transforma as cidades em reality shows.
A última batalha com o socialismo foi ganha na Alemanha dos anos 20 e quando foi preciso a direita usou da metralhadora e exterminou Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, assegurando a supremacia capitalista e logo a fusão do capital industrial, liberal, com o capital financeiro, oligárquico, das indústrias com os bancos, e fomentando a participação do trabalhador como bucha de canhão na Grande Guerra, que não lhe convinha e de onde não tiraria nenhum proveito.
Consolidada a dominação capitalista no mundo ocidental, faltou caráter e nobreza aos burgueses para exercer a liderança com dignidade e responsabilidade social. Tornaram-se soberbos e inconsequentes. 
O resto é o resto. Já basta para um fim de semana de 40 graus.
Vamos à praia, que ainda nos resta.

Previdência
No tempo de Pinochet o Chile foi albergado pelos Estados Unidos com todo tipo de apoio, entre eles um novo modelo de previdência social. O modelo prevalecente na época era o de solidariedade entre gerações. Cada geração trabalhava para manter a geração em retirada. Esse modelo funcionou muito bem por gerações, mas enfrentava problemas decorrentes de vários fatores: a inovação tecnológica ia encurtando o emprego; no processo civilizatório as famílias reduziam a procriação; a população retirada estava ganhando anos de sobrevivência com o avanço dos recursos médicos; a nova tecnologia aplicada à medicina encarecia enormemente o custo da saúde. Enfim, o produzido na geração atual não estava dando conta da sustentação da geração anterior. E a ideologia neoliberal imperante condenava qualquer tipo de suporte social não abrigado por geração própria.  Então chegou o modelo de previdência por poupança e através do Chile ele foi imposto demonstrativamente a todo o continente. Na época eu me servi do expertise da OIT para mostrar que o novo modelo assegurava um bom e atrativo começo porque os custos só iriam começar a pesar 20 anos depois. Fomos vencidos pero furor neoliberal e os governos de nossos países da região foram convencidos pela facilidade das vantagens imediatas. E agora quando vejo notícia de crise no modelo chileno, só não me rio porque é assunto de chorar.





domingo, 13 de setembro de 2015

Panorama Político Brasileiro

Instalada a crise, tudo é permitido. O rebaixamento do país por uma agência de classificação de risco tem muitas explicações e esconde interesses subversivos do sistema financeiro internacional. O trabalho dessas agências é criticável e suspeito, atende a interesses patronais. Em vez de ajudar o país a sair da crise, pune, eleva os juros que serve para aumentar a renda do sistema financeiro. Tudo muito redondo e cruel.
Razões oficiais para isso, se se procura acha. A administração do país foi uma catástrofe, foi desperdiçada uma oportunidade histórica de um governo popular, com um líder carismático que tinha um discurso contestatório do status quo. 

Entretanto, do ponto de vista prático e ideológico o PT apenas “surfou” na estrada aberta pelo PSDB. Não inovou em nada e não produziu nenhuma transformação estrutural.
Vejamos: a incorporação de milhões da pobreza ao mercado é uma estratégia capitalista, fartamente comemorada pela burguesia nacional. Essa virada foi preparada pelo PSDB quando desconectou o salário mínimo da pensão do aposentado, possibilitando aumentar o primeiro sem carregar junto o segundo. O PSDB abriu a porta e não teve tempo de usufruir, mas faria o que o PT fez, aumentar os ganhos do salário mínimo, festejado pelo comércio e bancos. A liberação do crédito foi apenas a extensão do instrumento principal.

A exploração eleitoreira do bolsa-família foi uma distorção de outra iniciativa do PSDB, as bolsas assistenciais,  (sobretudo o bolsa-escola) criadas como instrumentos provisórios enquanto a própria economia não assegurava a ocupação plena e a criação de emprego para as camadas mais pobres da população. Uma iniciativa que qualquer partido político de direita adotaria. Uma ação concreta de esquerda teria sido o investimento em cooperativas de produção e fortalecimento das atividades de promoção do desenvolvimento microrregional. O PT foi apenas assistencialista, não plantou nenhum alicerce sustentável.

É certo que o PT foi obrigado a jurar fidelidade ao sistema capitalista, para receber a chave do cofre governamental. E o primeiro ministro Meireles foi o cavalo de troia que garantiu a execução o modelo dual. Os mecanismos econômicos se mantiveram atrelados ao sistema financeiro internacional, incluindo aí a política de câmbio favorável à importação (dólar baixo) e juros altos para premiar o mundo financeiro, a ponto de Delfin Neto reconhecer que o Brasil “estava salvando o capitalismo internacional” num momento crítico em que nenhum país estava gratificando o capital. Só o Brasil fazia a festa do capital, e Lula era recebido com pompas pelo grande circuito financeiro. Nunca os próprios bancos nacionais ganharam tanto, ou pelo menos continuaram ganhando o mesmo do governo tucano.
O lulopetismo gostou da grande farra e esqueceu os compromissos sociais mais sérios e sustentáveis. Entro na farsa e se locupletou com as facilidades.

Como as commodities estavam faturando alto, puxadas pela disparada chinesa, criou-se uma ilusão de que o país finalmente podia ser o paraíso na terra, o distributivo virtuoso em que todos ganham, nada de soma zero.  Os sindicatos se venderam à atrativa autonomia absoluta, em que recebiam subsídios e não precisavam prestar contas. A classe média viveu a fantasia do dólar baixo que lhe permitia trocar Miami por Nova York e Paris, depois o mundo todo a seu alcance. A burocracia estatal teve grandes aumentos de salários sem nenhuma contrapartida de produtividade, para festa da CUT. A burguesia paulista ganhou o BNDES de presente, inflado com dinheiro do tesouro nacional e funcionando como o verdadeiro ministério do planejamento.

Já, por outro lado, nenhuma reforma substantiva na economia, na educação e na saúde. Para quê produzir se era muito mais barato importar? E ainda com a vantagem de usar a importação como arma de combate à inflação, se algum produto encarecia, importação para cima dele. Em vez de escolas de qualidade, bolsas para estudar na escola particular. Em vez de um sistema de saúde público de qualidade, planos de saúde a granel. Se isso é governo de esquerda, macacos me mordam!

Com essa farsa interna funcionando, o PT (leia-se Lula) saiu a campo para promover a ideologia que não praticava, do socialismo nativista. Primeiro com empréstimos impagáveis e depois com a Odebrecht para construir grandes obras muito superiores às realidades internas dos países aliados. Nada contra ajudar Cuba ou Bolívia, através de instrumentos políticos e econômicos “sarados”. Mas o que parece ter sido erguido foi um esquema de financiamento viciado com a vinculação a empresa patrocinada e custos inflados para esconder propina.

Chaga-se ao processo eleitoral e o PT desesperado decide apelar para tudo ou nada, subvertendo ostensivamente as regras do jogo. Mentiras, ofensas pessoais, recursos extras de origens escusas, xingamentos, bravatas, e até mesmo a suspeita forma de contagem de votos com todo o processo nas mãos de um aliado comprometido com o esquema do partido. Posteriormente foram-se abrindo as novas realidades e aparecendo os números do financiamento, tudo se somando e mostrando uma farsa eleitoral. Não há como negar que o pleito foi irregular e injusto para os adversários e portanto o impeachment aparece como possibilidade natural. O impeachment, ao contrário das alagações de golpismo, é um instrumento justo e legítimo da sociedade, peça imprescindível do processo democrático, criado justamente para que o povo possa se defender de abusos do poder político.  Claro que o impeachment não é um instrumento automático, ele tem regras e condicionamentos que precisam ser atendidos, mas isso não corte sua legitimidade.

A alternância no poder, que não é fácil de obter e praticar, talvez seja a grande arma para mediar os problemas de um país jovem, sem grandes líderes e ainda sem instituições sólidas (estão evoluindo) capazes de monitorar e controlar o lado obscuro da grande e heterodoxa sociedade brasileira.



quarta-feira, 13 de maio de 2015

Fragmentos do Facebook

O efeito perverso do suicídio político do PT é que os abutres que habitam a política de Brasília estão mostrando os dentes, sem que tenhamos um partido de esquerda para frear o apetite voraz que já ataca as conquistas trabalhistas e a própria Petrobrás. Ao dar um tiro no pé o PT sacrificou o que tinha de melhor, sua militância. Que bom se pelo menos o PSDB ainda tivesse a tintura social-democrática dos primeiros tempos.

 O que estamos assistindo é o início de uma expropriação descomunal das aspirações do povo brasileiro manifestadas nas redes sociais e nas ruas, e dos benefícios sociais do trabalhador, sem nenhum  pudor e sem nenhum partido político  com capacidade e vontade política para se opor a essa sangria. Os abutres se aproveitam do vazio de poder gerado pela desqualificação petista.    



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Comentários no Facebook

Política:
Antes que me rotulem, os que me conhecem sabem que não tenho compromissos políticos partidários, considero-me um socialista utópico e um crítico das democracias de fachada.Não sou anti-petista, mas simpatizante do PT original, antes do desvio de rota. Sou crítico do PSDB, não preciso comentar essa coisa que chamam de PMDB. Não sou ingênuo em política, e não me empolgo com falsas ilusões. Uso com frequência os métodos de aferição praticados pela ciência social, em particular pela ciência política.

Gente, não há nenhum mistério no fenômeno do “mensalão” e outros similares. Quando estávamos na universidade e fazíamos política estudantil desenhávamos muitos projetos de poder e sempre partíamos do princípio de que teríamos de usar a corrupção intestina da burguesia como única forma de chegar lá. Então era encontrar o caminho para usar a corrupção “deles” como instrumento para chegarmos lá. Ou seja, os fins justificariam os meios, nossos fins eram “justificáveis”, usar o poder para eliminar as distorções do sistema burguês, combater a pobreza, a desigualdade, promover uma sociedade igualitária, mais justa.                                                                                                        O que não deu certo? Bom, apesar de abrir os francos para o PT chegar lá, exigiram “uma carta” que foi cumprida a risco por Lula. Houve todo tempo dois governos, o de Meirelles para o andar de cima e o de Lula para o andar de baixo (agradeço ao Helio Gáspari). Meirelles doou um pedaço do cofre para Lula fazer sua gestão de baixo, desde que não tentasse tocar no andar de cima, que não era a praia de Lula. Toda vez que Lula tentava beliscar o andar de cima, uma dessas agências fajutas de risco concedia mais um crédito para Meirelles, e isso era uma advertência para Lula (podem fazer a verificação com os dados existentes e vão comprovar essa correlação, eu a segui de perto).                 O que houve então? O desgaste do poder, a facilidade do modelo que deu muito certo por um tempo. Foi esquecido que o segredo tinha de ser confiado com o outro lado, que não tinha as mesmas convicções. O facilitário contagiou todo tipo de espertezas e saiu do controle.
                                                                                                                                                                   O Bolsa Família é um programa comum a qualquer partido da direita. Ele não toca no eixo estrutural da economia do sistema. Ele foi concebido, no seio do PSDB, como recurso provisório e meio para promoção da incorporação do pobre ao mercado. O PT eternizou a pobreza com fins eleitoreiros. Se o PT fosse um verdadeiro partido de esquerda teria feito uma revolução na educação e promovido o desenvolvimento microrregional como forma de integração social do povo do bolsa-família. Não dá para desculpar o PT com a perda da maior oportunidade que teve um partido de esquerda no país.

No Brasil Inês é morta! Foram 12 anos perdidos de PT sem investimentos e com gastos gigantescos (corrupção, subsídios etc) irresponsáveis. Dá tristeza ver a desqualificação dos dirigentes. O Brasil era para ser uma grande Veneza, com canais de comunicação entre as grandes bacias hidrográficas, uma fartura d'água. 
Os neologismos petistas: O PT não privatiza, concede; não faz cortes trabalhistas, faz correções; não aumenta impostos, contrata especialistas para fazer isso. Muito distante do que pretendeu ser um dia.

Podemos ser a favor ou contra a pena de morte, mas uma lição é certa: as penas são para serem cumpridas, reduções progressivas da pena precisam ser melhor discutidas, bom comportamento que não devolve o dinheiro roubado é pura brincadeira, malandragem jurídica. A Justiça é um instrumento de acomodação.

O PT cometeu um abuso que nem o PSDB foi capaz de fazer, cortou ao meio a pensão das viúvas, sem analisar as diferentes situações que as envolvem. Aliás, o PT nunca enxergou o problema dos aposentados, nunca nesse país fez parte de sua agenda.
Muito sintomaticamente a mídia se calou, como os petistas, sobre o criminoso corte das pensões das viúvas e viúvos.  A mídia não cita nem por descuido o corte do PT nas pensões das viúvas, ao contrário, discretamente festeja. O que nos autoriza dizer que o PT e a direita  estão mais uma vez de braços dados. No recente discurso de posse Dilma se refere a "desvios", eufemismo puro. E segue afirmando que não vai tocar na previdência. 

O PT mostra a cara e anuncia, depois de aumentar descaradamente todos os salários em cadeia para a burocracia do governo, nas três áreas, corta a pensão da família de classe média e baixa da população brasileira. Nas grandes heranças não toca, do freio à corrupção não fala nada, dos 39 ministérios não corta nada. E tem petista que continua acreditando que o PT não mudou e que é de esquerda. Não existe esquerda no país, pelo menos não o PT. O PT foi incompetente, mas não paga ele mesmo o preço de sua incompetência.

É grave! Se o PT recebeu mais 200 milhões por fora, as eleições foram injustas e ilegais, há um grave crime eleitoral.
Jogada do PT de longo prazo. Lula volta em 2018 como oposição para consertar as coisas! Volta como salvador da pátria, opositor "a essa louca, que ninguém sabe quem colocou ali."

Nosso país precisa fazer uma reforma institucional e uma grande campanha de recuperação cultural e moral. Precisa também fazer uma revolução educacional. Mas onde estão as forças políticas com poder e legitimidade para conduzir um processo desse perfil e porte?



sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Que País é Esse?

No tempo da Economia Política as teorias e os instrumentos econômicos estavam ainda colados aos interesses da sociedade, procuravam realizar a felicidade dos povos. Mas a Economia perdeu sua adjetivação e ficou solta para cumprir tarefas anti-sociais. E quando o sistema financeiro primeiro se alinhou com o sistema produtivo e depois o superou, criando seu próprio universo, independente e hegemônico, a aposta na sociedade foi perdida. Foi gerado um modelo similar ao que vimos no cinema, em Matrix, com dois universos paralelos, dois mundos que mal se tocam, mas que se alinham mediante um perverso mecanismo de dominação. O universo superior aparece como uma realidade virtual, que pouco se mostra, que não tem interesse em aparecer, que dá impressão de invisível, embora seus efeitos sejam bastante concretos, basta se opor a eles para sentir sua força.

No universo inferior existem hierarquias que ajudam a equilibrar as forças sociais confrontadas, dando a forte impressão de realidade, e fórmulas diversas para manipular os processos internos de submissão.

Nesse mundo prevalece o mercado como instrumento ordenador da organização econômica e social, portanto da vida humana. Seus defensores sempre encontram um argumento compensatório, por vezes jogando espertamente com um futuro que não pode ser conferido de forma imediata, no mesmo momento. Obrigam-nos a esperar para ver, e então quase sempre é tarde demais. Convém também saber de que mercado se trata e em que condições ele estaria operando. Como nas leis científicas, se precisa garantir que certas condições permaneçam inalteradas, senão o enunciado não se cumpre. Ora, ninguém cuida de assegurar a igualdade de oportunidades com que os atores se apresentam ao mercado. E todo mundo sabe, como na política social, que condições iguais para situações desiguais geram resultados incorretos ou injustos.

Então ficamos sabendo que o mercado não pode ser a regra para todos os processos e que uma política é justamente o resultado de uma escolha intencional para realizar um determinado objetivo considerado necessário e justo. Mas quem se importa com isso?



Nesse mundo real quase tudo é permitido, uma disfarçada lei natural darwiniana, que em termos políticos alguns atribuem a decisões tomadas pelas grandes potências num acordo conhecido como “Consenso de Washington”: mais do privado e menos do estado; economia sem fronteiras; valor reduzido para o meio-ambiente; livre comércio e desregulação.

No plano maior os seres humanos distribuídos em países, segundo critérios por vezes impostos pelos mais fortes, se obrigam aos mais comezinhos limites, não ditados pela existência de recursos, mas pela disponibilidade social dos mesmos.

Mais sucintamente, os países se esforçam para não cumprir as regras do Consenso com distintos resultados. As empresas se animam com sua promoção a governantes privados, com autorização para assumir a administração de interesses públicos e fazem isso com seu espírito de puro utilitarismo.

Soberanos no primeiro universo, economistas e advogados de elite cumprem o ritual: prestam serviço nos governos, se empapam dos mecanismos de decisão, atuam reforçando o lado privado e depois vão receber suas recompensas diretamente nas grandes empresas e no sistema financeiro privado. E isso vem de longe, de sempre no país. Uma contaminação espúria das regras do jogo.



Voltando ao mundo subordinado, voltamos à lógica perversa do mercado e das pequenas e grandes espertezas. Enquanto a ideologia empresarial fala em compromisso com o cliente, responsabilidade social, o consumidor no comando e direitos de cidadania, a prática é toda ao reverso. Cada vez mais se colocam embaraços no contato direto. Quando se consegue ser atendido por alguma voz ao vivo, o interlocutor se confessa sem autonomia para tomar a mais simples decisão. Por enquanto são robots que respiram, mas tudo indica que serão substituídos em breve por robots de verdade, na lógica utilitarista inarredável de produzir com total economia de meios e buscar o melhor dos resultados. O fim do emprego semi-qualificado pode estar mais próximo do que se imagina. Onde uma máquina puder realizar a tarefa com menor custo relativo, o posto de trabalho vai desaparecer.



As empresas de todo tipo encontram uma forma adjetiva, lateral, de ganhar um pouco mais, à custa do trabalhador, com mercado e salários se reduzindo e colocado numa ciranda consumista induzida e facilitada por dezenas de instrumentos hábeis como cartões de crédito, parcelamentos imperativos, juros embutidos e uma panacéia de indicadores camuflados da evolução dos custos reais. São muitos índices justamente para confundir a massa, mas possam ser usados pelas poderosas bancas de direito e pelos escritórios financeiros em benefício das grandes empresas.

Qualquer ligação telefônica precisa passar, à conta do assinante, por várias e sucessivas etapas eletrônicas que supostamente atendem ao universo de interesse do cliente, falsa pretensão. Uma compra de utilidade doméstica pode ter o mesmo valor à vista ou em seis ou sete meses, o que significa na realidade que os juros estão disfarçadamente embutidos. Queira ou não o consumidor está pagando juros, e as agências que se pretendem atuar em sua defesa individualizam os casos de forma a não serem efetivas, apenas contemporizadoras. A justiça, funcional e intencionalmente embaralhada para filtrar e rolar as causas indesejadas, faz a festa para a advocacia.

E onde chegamos? A sociedade já está cansada de protestar, esgotada e descrente pelas sucessivas vitórias de Pirro, quando se ganha mas não leva. Os dirigentes estão confiantes em seus feudos, acomodados no descaso e na certeza de que tudo dá em nada e segue tudo como antes. Os que se dão bem não acham que se precisa mudar. Os que ainda não se deram bem sempre têm a expectativa de que chegam lá. Quem está fora da ciranda não tem como atrapalhar.

E como romper com a lógica inercial? O Governo de turno está soberbo, a conjuntura internacional sozinha garante resultados favoráveis ao contexto de estabilidade e portanto faz esquecer todas as agruras sofridas, e permite limpar o recente passado de delinqüência política. Então, para quê fazer alguma coisa? Quanto menos mexer na realidade menor o risco. Reforma política, depende. Crescimento econômico, para quê, se o programa bolsa-família está aí mesmo para cobrir o achatamento social?

Não importa se nossas empresas estão exportando emprego e se desnacionalizando para sempre, não conta o aprofundamento da distância das elites. O país vive um momento raro, conseqüência direta do aquecimento do comércio internacional sobretudo de commodities e comparativamente da escala de custos, onde os preços relativos dos fatores de produção, com salários baixos, corrupção e subsídios embutidos, estão bem abaixo da linha de comércio internacional. Mas não se está considerando o efeito perverso dessa relação, que vai promover concentração em produtos primários e commodities, enquanto as indústrias tradicionais de mão-de-obra intensiva vão-se reduzir e o setor moderno vai se desnacionalizar. Para os atuais dirigentes parece ser que “o futuro a deus pertence”.

Restam a imprensa, o ministério público e mais recentemente a polícia federal. É pouco. A imprensa tem cumprido um papel destacado em algumas áreas, mas não atua onde seus interesses não estão contemplados. Seus limites são claros. E não é toda a imprensa que está dedicada ao esclarecimento popular, como se sabe certos assuntos mais delicados só circulam em parte da imprensa escrita, que chega a um público selecionado e reduzido. Os jornais mais populares têm uma pauta menos política, mais voltada para assuntos de polícia, futebol e diversão. No rádio e na televisão é mais fortemente exercida a autocensura, que traduz interesses de classe dos proprietários, pertencentes à grande burguesia.

O Ministério Público faz um louvável esforço, mas tem de lutar contra escritórios advocatícios influentes, onde atuam antigas autoridades jurídicas, inclusive ex-ministros da justiça. Escritórios que podem recorrer a recursos escusos, de suborno, se quiserem, enquanto os defensores da causa pública precisam agir dentro da lei e correr o risco pessoal de bater de frente contra algum poderoso sem escrúpulos. Uma luta em que David tem de matar um Golias por dia. E podendo ainda esbarrar no sistema judicial, que age freqüentemente por critérios discutíveis ainda não compatibilizados com um projeto novo para o país.

E tem a polícia federal que por razões ainda não explicadas vem surpreendendo com uma ação que sacode a alma da sociedade, mesmo se sabendo que o resultado imediato vai ser anulado pelo setor reacionário do país, ainda muito poderoso e com descarada capacidade de mentir em público e mobilizar relações de compromisso.

Dito isto, me ponho em total embaraço. Como ser pessimista se o país parece estar no mais venturoso dos mundos possíveis (com mil perdões de Voltaire)? A classe média acaba com os estoques de eletrodomésticos e ainda viaja para o exterior, os pobres “embolsados” nunca comeram tanto, os idosos se sentem importantes porque suas famílias dependem deles, a elite está fazendo a festa de Caras e nem se preocupa sequer em disfarçar o festim, a ostentação não sofre represálias mas até admiração. As balas perdidas fazem parte dos jogos de azar que estão em todas as esquinas, e com a polícia federal fazendo a tarefa de casa, breve não haverá mais tanta transgressão. Os partidos políticos nunca foram mesmo grande coisa, então por que não enterrá-los de vez?

Resultado: resta-nos Lula, que com seu bom senso nos saberá guiar para um futuro promissor, mesmo se a seleção de futebol fracassar, mesmo se as novelas da Globo ficarem demasiado repetitivas e previsíveis.

Mas por alguma razão eu sinto que tenho de pedir: socorro!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A CLASSE MÉDIA, AGORA POR ELA MESMA




Já está nas livrarias o precioso álbum, muito bem ilustrado, que conta a realização do filme “5 x Favela, Agora por Nós Mesmos” com relatos e comentários realmente significativos. A idéia, em si, já é um achado. E dá para imaginar o esforço dedicado pelo pessoal das comunidades. O filme original, de 1955, foi um marco na cinematografia nacional, a referência a ele tem todo o sentido. O projeto atual não fica devendo, e de certa forma também marca o momento que estamos vivendo.

Pela mobilização de especialistas e qualidade dos equipamentos, não devem ter sido baixos os recursos captados para o projeto, embora essa informação não faça parte do documento. Não se pode deixar de inferir um fato que já vaza por todas as frentes da nossa realidade social. De tanto se pesquisar e se estranhar o chocante contraste da pobreza no país, de tanto se repetir a necessidade de dar atenção à calamitosa condição “dos menos favorecidos da sorte”, de tanto pesar a má consciência da elite nacional, vive-se um momento em que todas as vertentes políticas estão focalizadas nas populações de baixa renda, atropelando-se e duplicando-se na tarefa quase ilimitada de “salvar as classes despossuídas de seu destino inexorável”.

Mas as coisas não são assim tão simples. Uma vez em Lisboa, nos anos 70, em plena descolonização portuguesa na África, com a grande leva de portugueses retornando à força ao país, num processo necessariamente caótico, e uma forte corrente de “revolucionários” de todas as partes do mundo chegando àquela cidade na intenção de também participar do movimento dos “Cravos Vermelhos”, perguntei ao taxista que nos conduzia ao aeroporto se não se sentia orgulhoso de toda aquela solidariedade. Ele, muito pausadamente, e com o expressivo sotaque, comentou: “É, doutor, eu preferia que não nos ajudassem tanto!”

Nem vale a pena calcular o desperdício que envolve a parafernália de ONGs dedicadas á nobre tarefa de salvar o social, porque apesar de todos os pesares, real e efetivamente se está produzindo um efeito cascata de poderoso reforço das qualidades comunitárias, agora não apenas descobertas, mas também fortalecidas.

A fluência das populações historicamente injustiçadas é uma realidade no Brasil, e conforma uma estonteante “nova onda”, fulgurante na criatividade e na capacidade de mobilização. Enquanto a classe média cumpre o destino histórico de não gerar novidades e não saber aglutinar interesses, movendo-se numa modorrenta fragmentação de campos situacionais.

Desde os tempos imemoriais de Marx e Engels se sabe que não se pode esperar muito de um terreno com tintura residual, de natureza falsamente transitiva, capaz de viver uma eterna ilusão de poder e de vantagens comparativas, mas na verdade vitimada pela impossibilidade de se expressar claramente e conduzir seus legítimos direitos.

As elites, verdadeiras e falsas, não dependem de governos e o que lhes compete é apenas criar os disfarces para estar despercebidas, escondendo seu papel de detentoras reais do mando e responsáveis finais pelo que acontece no país. As elites não governam, fazem-se governar através de um corpo fragmentado de políticos, desfigurado como estratégia de sobrevivência.

Essa mesma configuração se expressa nas atuais eleições onde de um lado se acotovelam todas as forças sociais vigorosas, aliando-se a todo tipo de representação, e do outro lado o já velho partido centrista, que perdeu no caminho o lado esquerdo, e se mostra descolorido, sem identidade e fartamente desfocado. Com a triste sina de mais uma vez assumir o papel coadjuvante da história, desfigurado, sem discurso, e aparentemente transferindo para um futuro indefinido, como ele próprio, a sua hora e a sua vez. Infelizmente a expressão mais conformista das classes médias, tudo com a cara delas, mas nada que lhe serviria nesse momento. Não há palavra de ordem que possa levantar uma bandeira nesse território, numa luta já perdida e sem garantia de volta por cima. Mesmo sabendo da oportunidade histórica que se está perdendo, de estabelecer alicerces estruturais robustos como base de construção de um futuro solidamente democrático e socialmente justo, agora quando por discutíveis critérios se afirma que o Brasil é finalmente um país de classes médias.

Graças ao crédito quase ilimitado, as classes médias, que são imediatistas, se entusiasmam quando podem chegar a Paris, quando antes se satisfaziam com Miami. Despolitizadas, deixam-se iludir com discursos que não atendem a seus interesses reais, sucumbindo ao desgarre dos seus objetivos principais. Sendo um espaço flexível, sofre com as políticas que a reduzem ou alargam, diluindo suas fronteiras, ao sabor de critérios oportunistas. Até como massa de manobra consumista está dando lugar às chamadas classes c e d, novas donas do pedaço.

Outro dia um traficante se vangloriava diante das câmeras repetindo o que cada dia é mais óbvio, ele pode circular com desembaraço por toda a cidade, se ainda não está fichado pelas instituições policiais, mas as classes médias, cada vez mais encerradas em seus edifícios, e aí mesmo por vezes ameaçadas, não têm direito a visitar os lugares mais “quentes” do subúrbio, são tristes figuras enjauladas em seus berços de ouro. Os filhos das classes médias correm riscos se quiserem, por exemplo, chegar aos bailes “funk” dos bairros mais afastados, mas qualquer cidadão das Zonas Norte e Oeste pode circular pela Zona Sul e tomar sol nas charmosas praias da área.

“5 X Favela:agora por elas mesmas” é um marco, mas está longe de ser o que pretende. É notória a presença e influência que um grupo de elite do cinema exerce na criação e condução, inclusive na adoção de tecnologia e estratégia de última geração. Mas não podia ser diferente e isso não invalida o caráter inovador e ao mesmo tempo demonstrativo da nova realidade brasileira, com a cultura dominada fluindo como uma força emergente e mais intensiva que certamente será domesticada e consumida pelo sistema, como de costume, mas cada vez com maior participação dos que chegam de baixo.

A classe média seguirá seu destino, sem convicções, à procura de ser ela mesma e poder formular e conduzir seus interesses legítimos.

sexta-feira, 5 de março de 2010

CHOQUE DE PRINCÍPIOS

Neste ano eleitoral estamos fadados a ouvir as mesmas vagas promessas. Virou praxe o político repetir o que supostamente o povo quer ouvir e não exatamente sobre o que lhe pode competir no mandato desejado. Monta-se um diálogo de surdos. Na verdade estamos precisando de uma coisa que no passado se chamava “vergonha na cara” mas que podemos, mais polidamente, chamar de “questão de princípios”. A sensação é a de que o pasto não tem dono. Em Brasília a burocracia oficial costuma se perguntar com leve ironia: quem vai defender a viúva? De certa forma é também uma confissão de que ninguém ali vai se mexer, seja porque lhes falte poder para isso, seja por cansaço ou descrença, depois de tantos e tantos anos assistindo às mesmas tramas. Fica fácil lembrar que tudo começou lá atrás, na descoberta, mas isso não explica nem ajuda muito.


Não se pode ignorar que tem havido avanços na direção dos direitos de cidadania, que indiretamente pressiona por melhores hábitos. Igualmente é preciso reconhecer que alguns instrumentos poderosos foram criados, nas raras ocasiões de elevação dos espíritos, como na Constituição de 88. O Ministério Público talvez seja o mais importante desses instrumentos, mas sua prática tem sido obstaculizada por todos os meios e em alguns casos não deixam os procuradores de parecer “Quixotes Tupiniquins” lutando uma luta gloriosa mas desigual contra grandes e fortes poderes instalados em confortáveis e modernos escritórios, cercados de quantas bancas jurídicas forem necessárias, beneficiados por uma legislação que não está feita ou mantida por acaso.

Observamos diariamente pela mídia uma total confusão dos fatos, interpretações, atitudes e comportamentos que parecem retratar um país surrealista, uma construção absurda de cenários inconsistentes, desconexos, contraditórios. A tradicional organização política de separação dos poderes se mostra defasada, violentada, incapaz de se impor como modelo histórico. Os abusos se impõem em diferentes esferas, como nos freqüentes e geralmente injustificados aumentos de rendimento que se auto-atribuem e estendem a funcionários, contratados por serviços e quem mais estiver ao seu alcance. A sociedade civil mais escolarizada, já cansada de manifestações impotentes, de caras-pintadas, passeatas e abraços solidários, não demonstra mais capacidade de reação, mesmo quando as correntes internéticas parecem trazer novo alento à indignação pública, com seus grandes números. Mas o mundo virtual ainda não encontrou réplicas sólidas para superar os limites da própria virtualidade.

Então é possível assistir a filigranas de autonomia sindical para impedir a fiscalização do uso de recursos públicos, esquecidos de que não existe constitucionalmente nenhum setor do país livre de fiscalização, nem a empresa privada, o Congresso ou o Executivo.

Pode também uma autarquia faltar desastrosamente com a responsabilidade pela saúde pública, causando danos irreparáveis a boa parte da população, sem que haja indignação dos membros do poder político correspondente e sem que o próprio titular do posto tenha a grandeza de abdicar das funções, pelas quais ostensivamente pode demonstrar repetido enfado.

Onde, então, encontrar forças para mudar o estado de coisas, uma vez que os ventos internacionais estão empurrando a caravela verde-amarela a qualquer custo, sem tomar conhecimento do mar de sargaços em que navega, e o governo incorpora a ilusão de mérito próprio, quando uma formidável bolha de crédito invade todas as atividades comerciais, embutindo juros e criando um círculo fantasioso de progresso, de poder de compra, que se sabe poderá explodir adiante, se o cenário global decide encarar os fatos?

E como é difícil trilhar o caminho de defesa do consumidor!? Problemas repetidos ad nausea, que podiam ser objeto de defesa pública conjunta, pelo volume dos interesses, são deixados à livre e espontânea iniciativa individual, o que onera os meios e debilita as possibilidades de resultados positivos. Não existe nenhum prestador de serviços, na atualidade, que não arraste uma significativa lista de reclamações.



Não sei por onde começar, um amigo meu estava muito feliz contando como se sentia orgulhoso em Paris usando sua moeda forte contra o dólar ou o euro. Sentia-se finalmente um “igual”, podia desfrutar do melhor, tinha dinheiro para isso. E a gente acompanha, não apenas pelos jornais, mas pela conversa com amigos e vizinhos, todos se aprontando para viajar ou retornado de viagens encantadas. A classe média brasileira vai ao paraíso.

O povão do “Bolsa-família” também não tem do que se queixar, teve até aumento espontâneo do governo e não foi pequena a valorização dos chefes de família como centro financeiro com capacidade de compra no mundo da pobreza.

Enfim, com a classe média e o povão em estado de graça, quem vai ligar para o destino de nossa nação? A quem importa que se possa tomar dinheiro emprestado no exterior, aplicar por aqui, levar de volta o suficiente para pagar o empréstimo e ainda lucrar? A quem importa se nossas empresas industriais, pressionadas pelos custos comparativos internacionais, precisam apelar para todo tipo de jeitinho? E se ficam expostas e tentadas pelo capital estrangeiro, o que importa? O que importa se resultará no futuro uma complicação a mais na remessa de lucros e divisas e no balanço de pagamentos? Afinal, é fácil comprar empresas brasileiras em dificuldade, com o próprio lucro obtido nas aplicações financeiras, elas podem sair muito baratas ou mesmo a preço zero.

A quem importa, então, se a classe média vai gastar no exterior em lugar de nossas rotas turísticas internas? Afinal, o próprio presidente não dá o exemplo? Não é ele quem viaja pelo mundo com o prazer de um adolescente?

Se tudo está tão bem, por que será que me sinto tão preocupado? Por que sinto que alguma coisa está cheirando muito mal?

Tecnicamente pode ser que não estejamos numa guerra civil nas grandes cidades, então por que sinto que estou dentro de um inferno e as estatísticas teimam em demonstrar que realmente a morte ronda em cada esquina?

Não entendo por que devo sentir-me tão ameaçado, se os brasileiros estão em toda parte, em todo o mundo, se nossas mulheres fazem sucesso em todas as grandes cidades européias, e aqui mesmo no Nordeste são disputadas antes mesmo de ganhar estatura.

Tudo está dando certo e nossos políticos voltaram a fazer sua festa eleitoral, largos sorrisos e nem precisaram se importar com fichas sujas, se tem no país boas lavanderias.

Sou do tempo em que havia princípios, valores universais, mas tenho de reconhecer que tudo hoje é relativo. Havia aprendido com os franceses que no máximo se podia negar sempre, mesmo quando o cônjuge era apanhado na cama com um\a desconhecido\a, era a anedota exemplar. Mas agora negar evidências é rotina, acabaram com a piada. Max Nunes, o maior dos humoristas, já reclamou que estava perdendo o emprego, a realidade anda mais engraçada que seus esquetes.

Minha experiência pessoal com os prestadores de serviço – telefonias, bancos, serviços de infra-estrutura, etc. – tem negado sistematicamente a imagem que buscam as empresas de compromisso com o consumidor, o cliente, a cidadania. Enquanto a publicidade apela para esse lado, a realidade dos Procons e Pequenas Causas aponta para outro, muito diferente. Os telemarketings esgotam nossa paciência, as promoções são propositadamente confusas e não dizem tudo, as contas sempre trazem um dado inesperado, os contratos unilaterais de compra e venda ou de prestação de serviços, além de ilegíveis são grosseiramente abusivos.

Boa parte do mundo andou em crise, mas por aqui basta ir a um supermercado para experimentar as filas e os carrinhos abarrotados. Como entender isso?

Então, voltando ao amigo entusiasta com nossa moeda, eu me pergunto: se a moeda é forte, por que tem de ser escorada com taxas de juro tão elevadas? Se a inflação não levanta cabeça nem com o formidável estímulo ao consumo, alimentado sobretudo pela farra dos crediários, por que essa taxa de juros? Por que em qualquer estabelecimento comercial lhe oferecem e quase lhe obrigam a dividir a compra em tantas vezes?! Surrealismo, ou apenas não estamos entendendo nada?



Rio, janeiro de 2010.